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O ano era 1993. O sol de Mato Grosso queimava como só queima em Porto dos Gaúchos. A recém-construída ponte de madeira sobre o Rio Arinos, a maior do Brasil, diziam, com quase 240 metros era o orgulho da região.
Para mim, moleque arteiro e curioso, era mais que ponte: era um caminho pra aventura.
Ali, com minha bicicleta, eu cruzava para o outro lado do rio em busca de peixes e sossego. Era um dos meus cantos, um bom pesqueiro. Naquele dia, porém, peixe que era bom, nada. Nem piau, nem lambari, nem mesmo um bagre desgarrado. Só o silêncio, o calor e o murmúrio das águas.
Na volta, encostei a bicicleta e desci pelos mourões de travamento da ponte, coisa corriqueira pra quem nasceu no meio do mato. Fiz uma concha com as mãos e comecei a tomar água direto do rio costume antigo, quando a gente confiava mais na natureza do que nas cidades.
Mas algo estranho aconteceu. O fundo do rio escureceu. De repente, não era mais só eu e o silêncio. Era o silêncio e o medo. Um medo grosso, como névoa. Sem pensar duas vezes, saltei de volta pra ponte como um macaco assustado, escorregando nas madeiras, coração disparado. Lá de cima, ainda com a mão pingando água, vi a cabeça de uma sucuri mas não era sucuri qualquer. Era um monstro. Uma cabeça larga como pneu de carro... deslizando debaixo da superfície como se o rio fosse seu quintal.
Ela mergulhou de novo, e sumiu devagar. Tão devagar que levou quase dois minutos pra desaparecer de vez. O tempo pareceu parar. A ponte, o rio, o mato, tudo ficou em silêncio, como se o Arinos respeitasse aquela velha moradora.
Dias depois, correu pela vila a história de um pescador que viu a mesma cobra, enorme, escura e verde como sombra de floresta. Assustadora, segundo ele, nadava ao lado do barco como se fosse medir o tamanho da embarcação. No susto e no medo, ele deu dois tiros talvez de espingarda... Disse que acertou, mas não ficou pra conferir.
Naquela mesma semana, eu e meu pai gaúcho calejado e calado descemos o rio de canoa, para pescar do outro lado do rio. Na volta, remamos devagar rio acima, olhos atentos, com a água batendo no casco. E foi então que vimos. Enrolada numa árvore seca caída sobre a água, repousava a sucuri. Morta. Um tronco vivo que agora era cadáver. Inchada, pesada, como um segredo que o rio já não podia esconder.
Não dava pra medir, não com exatidão. Mas meu pai que já tinha enfrentado onça, quexada eJagunço disse com a voz firme:
Essa bicha tem mais de dez metros.
Ficamos ali um tempo. O rio corria manso, como se também lamentasse. E eu, menino de bicicleta, nunca mais desci pelos mourões pra beber água do Arinos.
Hoje, quando conto essa história, tem quem ria, tem quem duvide. Mas eu sei. O Arinos também guarda seus monstros. E naquela ponte de madeira, no coração de Porto dos Gaúchos, deixei parte da minha infância escorrendo com as águas.
Cronica escrita por Gelsiney Shell
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